Faz muito tempo que queria falar sobre o Rômulo Fróes. Este músico paulistano, incógnito e ao mesmo tempo explicito no dilema da melancolia e do samba, sua paixão silenciosa, “gilberta”. Foi preciso muito tempo, desde o o primeiro CD “Calado”, que por si só, no paradoxo ancestral. Ainda pedi minha amiga Gláucia Chris de forma excêntrica e pretensiosa que o ouvisse e o descrevesse: “me manda um email falando dele”. Mas era uma impressão da Gláucia, não era minha. Mas cabia a comparação de sentidos.
Rômulo Fróes é paulistano, apaixonado pelo samba. Talvez hoje acometido de uma certa angústia por, neste teu efêmero caminho, ter em sua essência entranhada essa relação de amor não menos tardia. Engraçado que, embora paulista, as harmonias de suas canções, estão mais para os arcos cariocas do que para o viaduto do chá. Mais para Cartola do que para Adoniran. Talvez porque o “samba precisa falar de samba”, talvez porque “o samba sobrevive quando as pessoas não têm medo de mexer nele, sem purismos ou exageros”, porque “não defendo a mistura de samba com drum’n’bass, mas também não precisa usar sapato branco pra dizer que é sambista".como ele mesmo discorre.
O certo é que há algo de estranhamente curioso e delicioso na música de Rômulo Fróes. Há susurro, preguiça, despojamento, poesia e samba condensados com acordes dissonantes de guitarra, navega na paz e deságua no nervosismo, no desespero. E consegue fazer tudo numa só canção, como esta que estou ouvindo agora: “Do ponto do chão”. Mas o samba está presente ali, embora ele não se considere sambista. E ele não é sambista, o samba é só um elemento ali dentro do que ele propõe. Até porque ele não amadureceu ouvindo samba, mas o rock alternativo de Red House Painters, Low e Damon & Naomi, etc. E eu não deixo de falar em samba até aqui. Será por que? Se toda a atmosfera musical de Rômulo Fróes lembra tristeza, delicadeza, angústia, suavidade.
Não sei se até aqui eu o defini com a proeza de um velho amante compulsivo pela música brasileira. Mas o que de fato interessa é que Rômulo Fróes é vangarda pura, é a promessa viva de que essa tal música brasileira tem ainda muito a oferecer a teus patrícios consumidores. E se você está curioso em ouvi-lo depois dessas minhas “mal traçadas linhas”, vou te dar a receita: são três álbuns, mas não mergulhe no “chão sem chão”, melhor senti-lo “calado” e ficar louco como um “cão” para chegar ao “chão”. São teus três álbuns. Ou, como aperitivo, deleite-se ouvindo o podcast deste mês.
Estamos abertos a reconsiderações críticas.
Rogério Santos


0 comentários:
Postar um comentário